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O gatuno da geladeira

Onde trabalho temos um gatuno. Antes ele(a) era só um gatuno de geladeira, não que isso diminua o fato de que ele furta e furtar é ruim, muito ruim, mas antes ele limitava-se a comida. Ele dava uma mordida em um bombom (e quem seria maluco de comer o resto), um gole generoso na lata de Coca, na caixa de Ades, cocada, pedaços de ovos de Páscoa, pães de queijo, iogurte, enfim, todo o tipo de coisa comestível que ficasse no frigobar ou por cima das mesas ou armários das pessoas. E veja, somos todos colegas de trabalho, a maioria trabalha junto há pelo menos quatro anos, quando alguém está com fome ou não teve tempo de almoçar, qualquer pessoa oferece o que quer que tenha, biscoitos, suco, balinha, um pedaço de bolo, pão de queijo, etc. As vezes você nem sabe de quem é aquela coca gelada na geladeira (nem sempre marcamos com nome) e está com uma sede danada, basta perguntar, o dono vai aparecer. Nunca vi ninguém dizer não, é só pedir.

Mas então começaram a sumir coisas diferentes, como um creminho para mãos que uma colega deixava sobre a mesa, não que fosse caro, não é esse o problema, mas sim que o creminho sempre ficou lá, mas que de hora para outra, sumiu. Essa foi a primeira prova de que o gatuno não era apenas um gatuno comilão, mas era algo pior do que imaginávamos. Primeiro que alguém que espera você não estar por perto da sua mesa de trabalho para virar seus armários em busca de doces ou comida já é um tanto ridículo, para não dizer assustador, já que para o próximo passo é um pulo, e esse tinha sido dado com o sumiço do creminho.

Depois disso continuamos a ter doces, biscoitos e refrigerantes furtados, mas fomos sentindo falta de outras coisas também. Um desodorante da Natura novinho em folha foi retirado de dentro de um armário, canetas, dinheiro, cremes caros receitados por dermatologista, enfeitinhos de mesa, um sacola de mercado com os biscoitos da semana de um setor, etc. O último foi um óculos de sol, era velho, não era de griffe, mas estava decorando um boneco de bexigas que montamos a várias mãos para enfeitar o canto da sala de uma colega. Ele recebeu cachecol, carinha feita a canetinha, um sorrisão e o óculos deu o ar de primavera, mas não durou muito.

Notamos que as coisas somem de um dia para o outro, na maioria das vezes. A empresa não tem câmeras filmando as mesas dos empregados, então fica muito difícil descobrir quem faz isso, e claro, não é qualquer pessoa que entra aqui, então podemos supor que é alguém da própria empresa. Temos algumas suspeitas, mas nada definitivo. Ainda esperamos pelo dia de sorte em que pegaremos o gatuno no ato, daí não vai ter nem choro, nem vela, ele vai ouvir, ahhh, se vai, e será de muitas pessoas indignadas, que estavam acostumadas a trabalhar em um ambiente onde se podia ir para casa tranquilo que seu café da manhã estaria ali, esperando, quando você chegasse cedinho para trabalhar no dia seguinte. Tirando os funcionários, só temos os terceirizados da limpeza e da copa. Como dizem, seria cômico, se não fosse trágico ter alguém entre todas as pessoas que compartilhamos oito horas por dia, cinco vezes na semana, que nos roube tão descaradamente e ainda durma tranquilo. Pois é, a história se repete, basta saber até quando.

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